Galáxias do Conhecimento
17/12/2025

Desvendando o cometa 3I/ATLAS

Cometa interestelar cruza o Sistema Solar, alimenta especulações sobre origem artificial e oferece pistas inéditas sobre objetos vindos de outros sistemas estelares.


Cometa 3I/ATLAS
Imagem do 3I/ATLAS obtida pelo Telescópio Espacial Hubble em 21 de julho deste ano, quando ele estava a cerca de 446 milhões de quilômetros (∼2,98 UA) da Terra. [Créditos: NASA, ESA, David Jewitt (UCLA); Image Processing: Joseph DePasquale (STScI), via NASA]

A trajetória

O 3I/ATLAS, também denominado C/2025 N1 (ATLAS), é apenas o terceiro objeto interestelar (I) descoberto até hoje - isto é, um corpo que se originou fora do Sistema Solar. Esse fato, por si só, já o torna de grande interesse científico, pois permite investigar, por meio de suas características físicas e químicas, o ambiente de onde veio.

O objeto foi identificado por um telescópio no Chile integrante do Sistema de Alerta de Impacto Terrestre de Asteroides da Universidade do Havaí (ATLAS - Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), que relatou a observação em 1º de julho deste ano, quando ele se encontrava a cerca de 670 milhões de quilômetros de distância, nas imediações da órbita de Júpiter, vindo da direção da constelação de Sagitário, ou seja, aproximadamente na direção do centro da galáxia.

Após esse primeiro anúncio, observações anteriores foram recuperadas a partir dos arquivos de três telescópios ATLAS distintos ao redor do mundo e da Instalação de Transientes Zwicky, no Observatório Palomar (Condado de San Diego, Califórnia). Essas chamadas “pré-descobertas” remontam a 14 de junho. Desde então, muitos outros telescópios realizaram observações adicionais.

As análises iniciais permitiram determinar sua trajetória e alta velocidade, fatores decisivos para que os cientistas concluíssem que se tratava de um corpo proveniente de fora do Sistema Solar.


Primeiras imagens do 3I/ATLAS
As primeiras observações do 3IATLAS
[Créditos: ATLAS/Universidade do Havaí/NASA]

O 3I/ATLAS está adentrando o Sistema Solar, mas não representa qualquer perigo para a Terra. A menor distância que atingirá em relação ao nosso planeta será de aproximadamente 270 milhões de quilômetros (∼1,8 UA), prevista para a próxima sexta-feira, dia 19 de dezembro, de acordo com elementos orbitais publicados pelo JPL/NASA. Essa aproximação constitui uma excelente oportunidade para observações mais detalhadas.

Bem mais próximo ele passou de Marte, do qual se aproximou entre 28 e 30 milhões de quilômetros (∼0,19 UA) em 3 de outubro. Nesse mesmo mês, no dia 29, atingiu sua maior aproximação com o Sol - o periélio - a cerca de 210 milhões de quilômetros (∼1,4 UA) de nossa estrela.

Após a passagem pela Terra, o cometa continuará seu caminho até deixar o Sistema Solar, uma vez que a força gravitacional do Sol não é suficiente para capturá-lo em órbita, devido à sua elevada velocidade. Em outras palavras, trata-se de um visitante passageiro: veio de algum sistema estelar desconhecido, do qual foi ejetado para uma viagem interestelar que pode ter durado milhões ou até bilhões de anos.

O 3I/ATLAS continuará acessível aos nossos telescópios até o outono de 2026 (primavera no Hemisfério Norte). Está previsto que, em 16 de março, ele passe a uma distância entre 50 e 54 milhões de quilômetros de Júpiter. A interação gravitacional com o planeta gigante provocará um desvio em sua rota, direcionando-o para a região da constelação de Gêmeos.

Após deixar nosso campo de visão, nunca mais veremos o 3I/ATLAS. Ainda assim, ele permanecerá viajando pelo Sistema Solar por muito mais tempo. Embora existam divergências entre os modelos quanto ao momento exato em que cruzará o equivalente à órbita de Netuno, há consenso de que isso ocorrerá entre 2026 e 2028. A saída definitiva do sistema só se dará após a travessia da nuvem de Oort, daqui a milhares de anos.



Animação simulando o cometa 3I/ATLAS ao cruzar nosso Sistema Solar. [Créditos: NASA]

Resumo - Eventos principais

Data Evento Distância / Observações
03/10/2025 Maior aproximação de Marte ∼ 28 a 30 milhões de km (∼0,19 UA)
29/10/2025 Maior aproximação do Sol ∼210 milhões de km (∼1,4 UA)
Nov/2025 Entrada no Sistema Solar interior Observado por diversos telescópios
Dez/2025 Visibilidade crescente Magnitude em queda gradual
19/12/2025 Maior aproximação da Terra ∼270 milhões de km (1,8 UA)
Jan/2026 Relativamente próximo à Terra ∼200-300 milhões de km
Fev/2026 Saída rumo ao espaço interestelar Rápida diminuição de brilho


Trajetória do 3IATLAS
Na linha que representa a trajetória do 3I/ATLAS em sua passagem pelo Sistema Solar, percebe-se o desvio de rota devido à força gravitacional que o cometa sofreu em sua maior aproximação com o Sol. [Imagem: NASA/JPL-Caltech]

Características do 3IATLAS

Desde a descoberta, praticamente todos os grandes telescópios — terrestres e espaciais — vêm acompanhando o 3I/ATLAS. Muito já se conhece sobre suas propriedades, como cor, velocidade e direção, todas compatíveis com o que se espera de um cometa.


Velocidade

Quando observado pela primeira vez, o objeto deslocava-se a cerca de 221.000 km/h. À medida que se aproximou do Sol, a gravidade solar não apenas desviou sua trajetória como também o acelerou, levando-o a atingir uma velocidade máxima de aproximadamente 246.000 km/h no periélio. Na sequência do percurso, sua velocidade diminuirá progressivamente, e o 3I/ATLAS deixará o Sistema Solar com valor semelhante ao da entrada.


Trajetória

Uma hipérbole é uma curva aberta e simétrica. Como mostram as simulações apresentadas anteriormente, a trajetória do 3I/ATLAS é hiperbólica, com uma curvatura acentuada durante a passagem pelo Sol, em função da força gravitacional exercida por nossa estrela.


Visibilidade

Durante o período de maior aproximação do Sol, no mês de outubro, o cometa não foi visível a partir da Terra, pois nosso planeta se encontrava do lado oposto da órbita. A partir de 31 de outubro, ele reapareceu no céu e pode ser observado novamente, inclusive com telescópios mais modestos, antes do amanhecer. A previsão é que permaneça observável até o outono de 2026.


Núcleo e coma

Sabe-se que o 3I/ATLAS possui um núcleo congelado envolto por uma coma, uma tênue atmosfera que, ao se aquecer com a aproximação do Sol, dá origem à cauda gasosa típica dos cometas. Com base em observações do Hubble realizadas em agosto, os astrônomos estimaram que o núcleo tenha entre 440 metros e 5,6 quilômetros de diâmetro.


Composição química

Análises espectroscópicas da coma, obtidas com múltiplos instrumentos, revelaram a predominância de CO₂ (dióxido de carbono) e uma quantidade relativamente pequena de água, resultando em uma razão CO₂/H₂O elevada (≈ 4-8:1 nas primeiras estimativas). Também foram detectados traços de CO (monóxido de carbono), OCS (sulfeto de carbonila) e CN (cianeto), além de emissões atômicas de níquel - energia liberada sob a forma de fótons por átomos de níquel neutro (Ni I) em estado excitado. Observou-se ainda que o cometa é pobre em cadeias de carbono, isto é, em moléculas orgânicas mais complexas.


O 3I/ATLAS é um cometa atípico?

Em comparação com os cometas mais conhecidos, sim. Ele apresenta características incomuns, o que é esperado para um objeto originário de um ambiente estelar desconhecido e possivelmente muito diferente do nosso:

  • Origem interestelar e trajetória hiperbólica.
  • Razão CO₂/H₂O significativamente maior do que a observada em cometas típicos.
  • Emissão de Ni I sem a correspondente presença de ferro (Fe).
  • Presença inicial de coma proeminente, mas sem cauda visível em distâncias nas quais cometas comuns já exibem caudas longas.
  • Aceleração não gravitacional nas proximidades do periélio, antes e depois da maior aproximação ao Sol.
  • Superfície ativa, com emissão de OH (hidroxila), sugerindo sublimação de água mesmo a distâncias superiores a 3 UA do Sol.
  • Variações de cor e brilho, assumindo coloração mais azulada na aproximação com o Sol, em contraste com o tom avermelhado típico de muitos cometas.

Cometa 3I/ATLAS
Imagem do 3I/ATLAS capturada pelo Gemini Multi-Object Spectrograph (GMOS) no Gemini South em Cerro Pachón, Chile, metade do Observatório Internacional Gemini, parcialmente financiado pela National Science Foundation (NSF) dos EUA e operado pela NSF NOIRLab. [Créditos: Gemini Multi-Object Spectrograph (GMOS)


O 3I/ATLAS é uma espaçonave alienígena?

Justamente por exibir algumas características incomuns ainda em investigação, proliferaram notícias sensacionalistas sugerindo que o comportamento do 3I/ATLAS seria conduzido de forma inteligente, como se fosse uma espaçonave enviada por uma civilização extraterrestre.

Segundo essas narrativas, a aceleração não gravitacional observada próximo ao periélio indicaria a presença de propulsores; as oscilações de brilho e as mudanças de coloração seriam interpretadas como luzes artificiais; e supostas “caudas invertidas” seriam vistas como prova de que não se trata de um cometa.

Também gerou especulações a detecção de ondas de rádio associadas ao objeto pelo radiotelescópio MeerKAT, integrante do sistema SARAO - South African Radio Astronomy Observatory (South African Radio Astronomy Observatory). No entanto, a emissão de rádio é comum em cometas e, no caso do 3I/ATLAS, decorre da presença de radicais OH (hidroxila), formados quando o gelo de água se dissocia na coma sob a ação da luz solar. Esses radicais produzem linhas características em frequências específicas, em torno de 1,665 e 1,667 Ghz.

Outro argumento invocado em especulações sobre a presença de tecnologia inteligente foi o fenômeno informalmente apelidado de "batimento cardíaco": uma variação de brilho descrita como ocorrendo a cada cerca de 16 minutos, às vezes apresentada de forma simplista como um "pisca-pisca". De fato, o 3I/ATLAS exibe variações de luminosidade quase periódicas, mas esse comportamento é comum em cometas ativos e está associado à rotação do núcleo combinada com a liberação intermitente de gases e poeira. Esses intervalos não são perfeitamente regulares e podem variar conforme a atividade do objeto, não constituindo evidência de um mecanismo artificial.

Narrativas ainda mais ousadas chegaram a sugerir que o objeto estaria traçando deliberadamente uma rota para se estabelecer em uma órbita entre a Terra e Marte, com a suposta intenção de observar nosso planeta - ou algo ainda mais fantasioso.

A hipótese de que o 3I/ATLAS possa ser uma nave alienígena foi amplamente divulgada após manifestações do cientista de Harvard Avi Loeb, que chegou a estimar entre 30% e 40% a probabilidade de o objeto ser um artefato tecnológico. Loeb, em colaboração com Adam Hibberd e Adam Crowl, é autor do artigo Is the Interstellar Object 3I/ATLAS Alien Technology?, publicado na arXiv em versão preprint (não revisada por pares) em 16 de outubro de 2025.

Loeb é conhecido por seu interesse em pesquisas de fronteira e já havia sugerido, anteriormente, que o objeto interestelar 'Oumuamua poderia ter origem artificial. É importante notar que a intenção declarada dos autores não foi apresentar uma conclusão definitiva, mas defender que hipóteses não convencionais também possam ser consideradas no debate científico - argumento que, até certo ponto, é legítimo.

Contudo, o conjunto de observações acumuladas até o momento praticamente encerra a questão. As imagens mais recentes divulgadas pela NASA evidenciam claramente a morfologia cometária do 3I/ATLAS, com núcleo, coma e cauda bem definidos. Nenhuma análise revelou qualquer indício de estruturas artificiais; pelo contrário, tudo aponta para um cometa autêntico, ainda que incomum.

É natural que apresente aspectos "exóticos", pois trata-se de um objeto recém-descoberto e oriundo de um ambiente estelar diferente do nosso. Ainda assim, todas as suas características observadas são compatíveis com explicações baseadas em processos físicos e químicos naturais. A verdadeira importância científica do 3I/ATLAS está na rara oportunidade de estudar material proveniente de outros sistemas planetários e ampliar nosso entendimento sobre a diversidade de objetos no Universo.


Cometa 3I/ATLAS
A nitidez óptica desta imagem obtida pelo Hubble em 30 de novembro evidencia os atributos básicos de um cometa: núcleo, coma e formação de cauda. A composição química e a dinâmica do 3I/ATLAS são incomuns, mas nada que contrarie a física e a química cometárias. [Foto: NASA]

Oumuamua
O 'Oumuamua (1I/2017 U1) foi o primeiro objeto interestelar descoberto ao visitar nosso Sistema Solar. Ele passou a cerca de 24 milhões de quilômetros da Terra em outubro de 2017. O segundo foi o 2I/Borisov, que se aproximou 180 milhões de quilômetros de nós e foi claramente identificado como um cometa típico. [Imagem: European Southern Observatory / M. Kornmesser]