Galáxias do Conhecimento - Cosmologia

Notícia

06/07/2026

Galáxias gigantes no universo primordial: uma descoberta que surpreendeu os astrônomos

Em 2023, observações realizadas pelo Telescópio Espacial James Webb revelaram candidatas a galáxias extremamente massivas quando o universo tinha apenas cerca de 600 milhões de anos. Desde então, novos estudos vêm refinando essas estimativas e investigando os mecanismos que podem explicar um crescimento tão precoce.


James Webb Space Telesccope
O JWST, lançado em 2021, inaugurou uma nova geração de telescópios espaciais. Com sua poderosa visão infravermelha, está revelando detalhes inéditos sobre os primeiros estágios da evolução do universo.
[Imagem: NASA]

Introdução

A consolidação dos modelos cosmológicos desenvolvidos ao longo do século XX levou os cientistas à conclusão de que galáxias plenamente formadas somente passariam a existir em grande quantidade ao final do primeiro bilhão de anos após o Big Bang.

As galáxias mais massivas, em especial, deveriam ser extremamente raras — ou mesmo inexistentes — durante esse período inicial. Hoje sabemos que o universo primitivo já abrigava sistemas muito mais evoluídos do que se imaginava, percepção que começou a ganhar força a partir das primeiras observações realizadas pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST - James Webb Space Telescope).

Recentemente, analisando algumas das primeiras imagens obtidas pelo poderoso telescópio, uma equipe internacional de pesquisadores identificou candidatas a galáxias extremamente massivas existentes quando o universo tinha entre apenas 500 e 700 milhões de anos de idade.

A descoberta foi apresentada em artigo publicado na revista Nature, em 22 de fevereiro de 2023 (link nas referências), pela equipe liderada pelo professor Ivo Labbé, da Universidade de Tecnologia Swinburne, na Austrália.

Os resultados surpreenderam a comunidade científica. Como o universo ainda era extremamente jovem, seria necessário converter o gás primordial em estrelas com uma eficiência muito superior à prevista pelos modelos de formação de galáxias para explicar um crescimento tão rápido.

Não há dúvida de que a existência dessas galáxias pode trazer importantes consequências para os modelos de formação e evolução das estruturas cósmicas. Por isso, não demoraram a surgir manchetes sensacionalistas sugerindo que o modelo cosmológico padrão teria sido "derrubado". A continuidade das pesquisas, porém, mostrou que essa interpretação era exagerada.

Uma teoria científica não representa uma verdade absoluta e imutável. Trata-se de um modelo construído para descrever a realidade com base nas melhores evidências disponíveis. À medida que novas observações são realizadas, esse modelo pode ser refinado e aperfeiçoado ou, em situações excepcionais, substituído por outro que explique melhor os fatos observados.

Descobertas surpreendentes, portanto, nem sempre invalidam teorias consolidadas. Muitas vezes, elas revelam aspectos ainda desconhecidos do universo e conduzem ao aperfeiçoamento dos modelos existentes. É justamente assim que a ciência avança.

O que o James Webb encontrou?

O Telescópio Espacial Hubble (HST - Hubble Space Telescope), por meio de suas famosas imagens de campo profundo, já havia revelado inúmeras galáxias localizadas a distâncias de até mais de 13 bilhões de anos-luz. A maioria, entretanto, apresentava baixa massa e encontrava-se em estágios iniciais de formação. Muitas outras permaneciam invisíveis às limitações do Hubble.


Campo profundo do Hubble
Recorte da primeira imagem de campo profundo obtida pelo Telescópio Espacial Hubble
[Imagem: NASA]

O JWST não observa regiões significativamente mais distantes apenas porque possui um espelho maior que o de seus antecessores. Sua principal vantagem é ter sido projetado para captar a radiação infravermelha, faixa do espectro na qual hoje chega a luz emitida pelas primeiras estrelas e galáxias. Originalmente emitida principalmente no ultravioleta, essa luz teve seu comprimento de onda progressivamente aumentado pela expansão do universo durante bilhões de anos.

A intensidade desse deslocamento para comprimentos de onda maiores é expressa pelo redshift (z). Em linhas gerais, quanto maior seu valor, mais distante está o objeto observado e mais antiga é a luz que chega até nós.

Pouco tempo após seu lançamento, o James Webb voltou seus instrumentos para regiões extremamente profundas do cosmos, registrando imagens das primeiras gerações de galáxias com um nível de detalhe jamais alcançado por qualquer outro telescópio.

Essas observações deram origem a diversos estudos pioneiros. Entre eles destacam-se os trabalhos independentes liderados por Marco Castellano, do Instituto Nacional de Astrofísica, em Roma, e Rohan Naidu, do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicados separadamente no Astrophysical Journal Letters (links nas referências).

Em apenas quatro dias de análise, as equipes identificaram duas galáxias extraordinariamente brilhantes, cuja luz foi emitida quando o universo tinha aproximadamente 450 e 350 milhões de anos de idade. Com redshifts próximos de 10,5 e 12,5, respectivamente, esses objetos figuram entre as galáxias mais distantes já observadas.

As características dessas galáxias indicam que elas começaram a se formar apenas cerca de 100 milhões de anos após o Big Bang, revelando que o processo de nascimento das primeiras estruturas cósmicas pode ter sido muito mais rápido do que os modelos tradicionais previam.


Galáxias primordiais
Duas das galáxias mais distantes já observadas pelo Telescópio Espacial James Webb, registradas na direção do aglomerado de galáxias Abell 2744. Embora apareçam na mesma imagem, elas estão localizadas muito além do aglomerado, cuja gravidade atua como uma lente gravitacional, ampliando sua luz. [Créditos: NASA, ESA, CSA, Tommaso Treu (UCLA); Processamento de imagem: Zoltan Levay (STScI)]

É importante observar, contudo, que o brilho excepcional dessas galáxias não implica, necessariamente, que elas já fossem muito massivas. Uma galáxia pode apresentar elevada luminosidade por estar atravessando um período intenso de formação estelar, sem que isso signifique ter acumulado uma enorme quantidade de estrelas. A questão da massa foi justamente o foco de outro estudo, conduzido pela equipe de Ivo Labbé (conforme citado na introdução).

Utilizando as primeiras observações do JWST, os pesquisadores identificaram seis candidatas a galáxias extremamente massivas — rapidamente apelidadas pela imprensa de "galáxias gigantes" — existentes entre aproximadamente 500 e 700 milhões de anos após o Big Bang. Segundo as estimativas iniciais, uma delas poderia possuir massa estelar próxima de 100 bilhões de massas solares, valor considerado extraordinário para uma época tão remota.


Galáxias gigantes
As seis candidatas a galáxias extremamente massivas identificadas nas primeiras observações do James Webb e analisadas por Ivo Labbé e colaboradores.
[Créditos: NASA / ESA / CSA / I. Labbé]

Questões em aberto

Estudos posteriores sugeriram que as galáxias descritas por Ivo Labbé e colaboradores talvez não sejam tão gigantes quanto as estimativas iniciais indicavam. Não por acaso, os próprios autores referem-se a esses objetos como candidatas a galáxias extremamente massivas, ressaltando as incertezas inerentes às primeiras análises.

Observações complementares e medições espectroscópicas mais precisas vêm refinando essas estimativas de massa, indicando que algumas delas provavelmente são menos massivas do que se imaginava. Ainda assim, permanecem entre as galáxias mais surpreendentes já observadas em uma época tão remota do universo.

Independentemente das revisões nas estimativas de massa, as descobertas de Castellano, Naidu, Labbé e de diversos outros pesquisadores convergem para uma mesma conclusão: o universo primordial foi capaz de formar galáxias complexas e altamente ativas muito mais cedo do que previam os modelos tradicionais de formação galáctica.

Como essas galáxias cresceram tão rapidamente? Que mecanismos permitiram taxas tão elevadas de formação estelar? Como o gás primordial pôde ser convertido em estrelas com tamanha eficiência? E de que forma tudo isso ocorreu em um universo ainda extremamente jovem, turbulento e em plena transformação?

Essas perguntas permanecem sem resposta definitiva.

Ao mesmo tempo, estudos mais recentes mostram que essas descobertas não invalidam o modelo cosmológico padrão (Λ-CDM). O que elas colocam em evidência é a necessidade de aperfeiçoar os modelos que descrevem o nascimento e a evolução das primeiras galáxias, incorporando processos que talvez tenham sido muito mais eficientes do que se supunha.

O James Webb continua explorando regiões cada vez mais profundas do cosmos, revelando novos objetos e fornecendo dados sem precedentes sobre o universo primordial. A cada nova observação, os astrônomos refinam suas hipóteses e ampliam a compreensão de uma das fases mais fascinantes da história cósmica.

As chamadas "galáxias gigantes" talvez não sejam exatamente como pareciam nas primeiras estimativas. Ainda assim, sua descoberta representa um marco na astronomia moderna. Mais do que desafiar teorias consolidadas, ela demonstra como a ciência evolui: novas observações levantam novas perguntas, estimulam o aperfeiçoamento dos modelos existentes e tornam nossa compreensão do universo cada vez mais rica e precisa.



★ Edição: Mauro Mauler - notícia publicada em 6 de julho de 2026

★ Referências:
  • CASTELLANO, Marco et al. Early Results from GLASS-JWST. III. Galaxy Candidates at z ∼9-15. The Astrophysical Journal Letters, 938:L15 (9pp), 20 out 2022. DOI: 10.3847/2041-8213/ac94d0
  • LABBÉ, Ivo et al. A population of red candidate massive galaxies ~600 Myr after the Big Bang. Nature, 22 fev 2023. DOI: 10.1038/s41586-023-05786-2
  • LABBÉ, Ivo. 'We just discovered the impossible': how giant baby galaxies are shaking up our understanding of the early Universe. The Conversation, 22 fev 2023. DOI: 10.64628/AA.5tvj63wse
  • NAIDU, Rohan P. et al. Two Remarkably Luminous Galaxy Candidates at z ≈ 10-12 Revealed by JWST. The Astrophysical Journal Letters, 940:L14 (11pp), 20 nov 2022. DOI: 10.3847/2041-8213/ac9b22
  • NASA Webb Mission Team. NASA's Webb Draws Back Curtain on Universe's Early Galaxies. NASA, 17 nov 2022.
  • WANG, Weichen et al. A giant disk galaxy two billion years after the Big Bang. Nature, 17 mar 2025. DOI: 10.1038/s41550-025-02500-2

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