Hipóteses do multiverso
Multiverso quântico

A palavra alemã quantum (plural: quanta) significa "quantidade", "cota" ou "porção". Ela foi escolhida pelo físico Max Planck, no início do século XX, para expressar a ideia de que a energia, em nível microscópico, não varia de forma contínua, mas é emitida e absorvida em pacotes discretos - os quanta de energia. Esse conceito constitui um dos fundamentos da física quântica, ou mecânica quântica.
Desde sua formulação, a teoria quântica admitiu diferentes interpretações. A mais tradicional é a interpretação de Copenhague, associada principalmente a Niels Bohr e Werner Heisenberg. Segundo essa visão, a mecânica quântica é essencialmente probabilística, e não faz sentido recorrer a variáveis "ocultas" para explicar os fenômenos observados. O ato da medição desempenha um papel central, sendo responsável pelo colapso da função de onda.
Uma interpretação alternativa, conhecida como interpretação dos muitos mundos, conduz à ideia de universos paralelos. Nessa abordagem, a função de onda nunca colapsa: todas as possibilidades previstas pelas equações da mecânica quântica se realizam, cada uma em um ramo distinto da realidade.
Embora Erwin Schrödinger tenha contribuído decisivamente para a formulação da mecânica quântica por meio de suas equações, ele próprio manifestou desconforto com as implicações ontológicas da teoria. Ainda assim, suas reflexões ajudaram a evidenciar o caráter não clássico da descrição quântica e a multiplicidade de resultados possíveis associados à evolução da função de onda.
A formalização explícita da Interpretação dos Muitos Mundos foi realizada pelo físico norte-americano Hugh Everett III, em 1956, em sua tese de doutorado orientada por John Wheeler. No ano seguinte, Everett publicou um artigo na Physical Review, no qual propôs que a mecânica quântica pode ser interpretada como uma teoria universal, válida para todos os sistemas físicos, sem a necessidade de postular um colapso da função de onda.
O físico teórico Bryce DeWitt tornou-se um dos principais divulgadores e defensores da interpretação de Everett, cunhando o termo "Muitos Mundos" e contribuindo para o refinamento conceitual da teoria.
Aluno de DeWitt, o físico israelense David Deutsch, pioneiro da computação quântica, aprofundou essas ideias em sua obra A Essência da Realidade (The Fabric of Reality), publicada em 1997. Nesse livro, Deutsch discute uma possível "teoria de tudo", baseada na interação entre quatro grandes áreas do conhecimento: a física quântica, a epistemologia, a teoria da computação e a teoria da evolução.
Deutsch argumenta que o universo que percebemos é apenas uma pequena fração da realidade física total. Ele sugere que diferentes universos podem coexistir sem interagir diretamente, não por ocuparem regiões distintas do espaço, mas porque o próprio conceito de espaço só faz sentido dentro de cada universo individual. Nesse contexto, afirmar que mundos diferentes "ocupam o mesmo espaço" significa dizer que cada ponto espacial em um universo possui uma correspondência matemática nos demais.
Segundo Deutsch, embora esses mundos sejam, em princípio, inacessíveis uns aos outros, seus efeitos podem se manifestar indiretamente, especialmente no contexto da computação quântica. Nessa visão, a realidade fundamental seria uma estrutura mais abrangente, da qual cada universo individual representa apenas um aspecto ou projeção.
É importante ressaltar que essa abordagem não implica que todos os acontecimentos ocorram simultaneamente no sentido comum do termo. Em universos distintos, histórias diferentes se desenrolam a partir de ramificações quânticas, dando origem a trajetórias alternativas para sistemas físicos - inclusive para sistemas complexos, como os seres humanos.
Como o próprio Deutsch enfatiza, a ciência não estabelece verdades definitivas, mas constrói modelos que descrevem a realidade com base em observações e previsões testáveis. A consistência da hipótese do multiverso quântico decorre do fato de que ela emerge como uma interpretação coerente das equações da mecânica quântica, sem recorrer a mecanismos adicionais, como o colapso da função de onda.
A principal diferença entre essa abordagem e aquelas associadas à repetição infinita ou à inflação eterna é que, no caso dos muitos mundos, os universos não compartilham um mesmo espaço físico contínuo. Essa característica frequentemente evoca analogias com "outras dimensões", embora tal associação deva ser entendida com cautela, pois não corresponde ao uso técnico do termo na física.
Com base nessas ideias, surgem especulações filosóficas que extrapolam o domínio estritamente científico, como a hipótese de que a consciência poderia persistir em diferentes ramos da realidade. No entanto, tais conjecturas não fazem parte da interpretação original dos muitos mundos nem constituem previsões testáveis da mecânica quântica, permanecendo no campo da reflexão metafísica.
Argumentos contrários ao modelo
A hipótese do multiverso quântico pode ser fascinante, mas é também profundamente controversa. Eminentes cientistas defendem sua viabilidade com base em argumentos conceituais e cálculos teóricos consistentes. Partindo do pressuposto de que a interpretação dos muitos mundos da mecânica quântica seja correta, o formalismo matemático da teoria conduz de modo natural à ideia de universos paralelos, sem a necessidade de hipóteses adicionais.
Para outros, porém, essa proposta soa excessivamente fantástica, próxima da ficção científica. As críticas levantadas contra o multiverso quântico são variadas: algumas se alinham aos critérios tradicionais da ciência formal, enquanto outras decorrem mais de desconfortos intuitivos ou filosóficos do que de objeções propriamente científicas.
É fato que nenhuma das modalidades de multiverso é diretamente observável. No entanto, no caso do multiverso quântico, essa limitação não possui o mesmo peso que teria em teorias físicas convencionais, uma vez que modelos cosmológicos raramente satisfazem critérios estritos de observação direta.
Assim, o problema da testabilidade empírica é apenas parcialmente aplicável à interpretação dos muitos mundos, que não constitui uma teoria independente, mas uma interpretação ontológica - isto é, uma proposta sobre o que existe de fato na realidade física - de uma teoria já estabelecida: a mecânica quântica, cujos princípios e previsões experimentais foram amplamente confirmados.
Deve-se observar ainda que, embora não exista nenhum teste observacional capaz de distinguir a interpretação dos muitos mundos das demais interpretações quânticas, ela tampouco entra em conflito com qualquer teste observacional ou cosmológico já realizado.
Desse modo, as críticas mais substanciais ao multiverso quântico não dizem respeito a questões empíricas, mas sim a problemas de natureza ontológica e conceitual, sobretudo à impossibilidade de se atestar observacionalmente a existência física dos outros ramos do universo. Entre as principais dificuldades frequentemente apontadas estão:
- a ambiguidade ontológica: o que existe, de fato, em cada ramificação da função de onda?
- o problema da medida: como justificar probabilidades em um processo fundamentalmente determinístico?
- os critérios de ramificação mal definidos: quando e de que modo ocorre a divisão dos mundos?
- o status epistemológico dos outros ramos: se não são observáveis, em que sentido fazem parte da descrição física da realidade?
Em favor do multiverso quântico, é importante destacar que ele não faz previsões arbitrárias, não contradiz dados observacionais conhecidos, emerge diretamente de uma das teorias mais bem-sucedidas da história da ciência e não apela a mecanismos ad hoc. Ao contrário, dispensa o postulado adicional do colapso da função de onda, limitando-se à aplicação rigorosa do formalismo quântico, cujo funcionamento matemático é internamente consistente e empiricamente robusto.
★ Edição: Mauro Mauler - Publicado originalmente em 17/10/2023 - revisto e atualizado em 21/01/2026.
★ Referências:
- CARROLL, Sean M. Something Deeply Hidden: Quantum Worlds and the Emergence of Spacetime. New York: Dutton, 2019.
- DEUTSCH, David. A essência da realidade. 1.ed. São Paulo: Pearson Education, 2000.
- EVERETT III, Hugh. ""Relative State" Formulation of Quantum Mechanics. Reviews of Modern Physics, jul. 1957.
- GREENE, Brian. A realidade oculta: universos paralelos e as leis profundas do Cosmo. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- TEGMARCH, Max. Parallel Universes, v1. arXiv, 07/02/2003.
- TEMPLE, Robert. Multiple Universe (Dialogue with David Deutsch). Second Look Magazine, jul. 1979.



