Hipóteses do multiverso
Multiverso na teoria das cordas e na teoria-M
(Multiverso paisagem)

Introdução: multiverso paisagem
A teoria das cordas é uma das principais propostas para a unificação das leis físicas, cujas equações admitem um grande número de soluções possíveis, associadas a diferentes estados de vácuo - configurações estáveis de energia mínima, capazes de definir leis físicas distintas.
A teoria-M amplia esse quadro teórico, reunindo e estendendo os resultados das diversas formulações das cordas. Desse arcabouço emerge o chamado multiverso paisagem (landscape), no qual cada ponto corresponde a um universo fisicamente possível.
1. Multiverso na teoria das cordas
Um dos argumentos mais conhecidos em favor da ideia de multiverso está relacionado ao valor da energia escura presente no espaço aparentemente vazio. Trata-se de um parâmetro notavelmente "ajustado": se fosse apenas um pouco maior, a formação de estrelas, planetas e galáxias seria inviável, e nós jamais teríamos existido.
Como explicar um valor tão específico? No contexto do multiverso, a quantidade de energia escura poderia assumir incontáveis valores diferentes em universos distintos. Nesse cenário, a ocorrência de um valor compatível com a existência de estruturas complexas - e da vida - deixa de ser improvável, tornando-se até mesmo inevitável.
Esse raciocínio, contudo, é essencialmente probabilístico e não esclarece por que cada universo possuiria um valor particular de energia escura. As possíveis respostas para essa questão podem estar associadas à teoria das cordas.
Esse modelo é um ambicioso arcabouço teórico que busca unificar todas as leis fundamentais da física, idealmente por meio de uma descrição matemática única capaz de explicar a origem, a estrutura e a dinâmica do cosmos.
Segundo a teoria, partículas elementares não seriam objetos pontuais, mas sim diminutas cordas vibrantes, filamentos de energia extremamente pequenos, cujos diferentes padrões de vibração dão origem aos diversos tipos de partículas observadas.
A matéria, portanto, é composta por átomos, formados por elétrons e núcleos atômicos; estes, por sua vez, são constituídos por prótons e nêutrons, que se subdividem em quarks. Em um nível ainda mais fundamental, a Teoria das Cordas propõe que tudo se origina das vibrações dessas cordas elementares.
Um aspecto crucial da teoria é que sua formulação matemática exige a existência de dimensões espaciais adicionais. Na versão tradicional da Teoria das Cordas, o espaço possui nove dimensões espaciais, ou seja, seis além das três que percebemos diretamente. A energia associada às cordas pode vibrar ao longo de todas essas dimensões.
Mas onde estão essas dimensões extras? De acordo com os defensores da teoria, elas são extremamente pequenas e encontram-se compactificadas, "enroladas" em escalas microscópicas. O formato dessas dimensões adicionais influencia diretamente os padrões vibratórios das cordas e, consequentemente, as propriedades físicas do Universo, como as partículas existentes e os valores das constantes fundamentais.
É justamente nesse ponto que surge um dos maiores desafios - e, ao mesmo tempo, uma das consequências mais intrigantes - da teoria das cordas. A matemática da teoria admite um número gigantesco de formas possíveis para essas dimensões compactas, estimado em mais de 10500 configurações distintas. Cada uma dessas configurações corresponde a um estado de vácuo diferente.
A partir dessa perspectiva, todas essas soluções seriam fisicamente válidas. Cada estado de vácuo definiria um universo possível, com leis físicas e valores de constantes distintos. Assim, a teoria das cordas não descreveria exclusivamente o nosso Universo, mas um vasto multiverso paisagem, composto por pelo menos 10500 universos distintos - o número 1 seguido de 500 zeros.
2. Multiverso na teoria-M
[Créditos: Dana Berry/NASA, via Scientific Visualization Studio]
Aprimoramentos na precisão dos cálculos da teoria das cordas - mais precisamente, das chamadas teorias de supercordas - revelaram que ela pode assumir cinco formulações matematicamente consistentes distintas. Atualmente, entende-se que essas cinco teorias não são modelos concorrentes, mas diferentes descrições de um mesmo arcabouço fundamental, válidas em regimes físicos específicos — de modo análogo à gravitação de Newton, que constitui uma excelente aproximação da teoria da relatividade geral de Einstein em certos limites.
O elemento determinante que distingue essas cinco versões é uma constante matemática conhecida como constante de acoplamento das cordas, a qual expressa a intensidade da interação entre elas - ou, em termos simplificados, a probabilidade de uma corda interagir com outra. Sabe-se que, ao variar o valor dessa constante, uma dessas teorias pode se transformar continuamente em outra, evidenciando uma profunda correlação entre todas elas.
Essa rede de relações levou à proposta de um modelo unificador mais amplo, conhecido como teoria-M, formulado na década de 1990 pelo físico teórico norte-americano Edward Witten. A teoria-M não substitui a teoria das cordas, mas a generaliza, fornecendo um quadro conceitual mais abrangente no qual as cinco versões das cordas surgem como casos particulares.
Como vimos, a teoria das cordas previa originalmente a existência de nove dimensões espaciais, além da dimensão temporal. Os desenvolvimentos que conduziram à teoria-M indicaram que os constituintes fundamentais da realidade não se limitam a cordas unidimensionais, mas incluem também objetos estendidos de dimensões superiores.
Esses objetos são denominados branas (do inglês branes, derivado de membranes). As cordas correspondem às 1-branas, enquanto superfícies bidimensionais são chamadas de 2-branas, e assim sucessivamente, podendo chegar até 9-branas, dependendo do modelo considerado. Todas essas entidades são dinâmicas e possuem graus de liberdade próprios.
Um resultado particularmente importante demonstrado por Witten é que o valor da constante de acoplamento das cordas está associado ao tamanho de uma décima dimensão espacial adicional. Desse modo, a teoria-M descreve um universo com dez dimensões espaciais, que, somadas à dimensão temporal, totalizam onze dimensões no espaço-tempo.
Outro ajuste conceitual relevante introduzido por essa abordagem refere-se ao tamanho dos objetos fundamentais. As cordas propriamente ditas são, de fato, extremamente pequenas - próximas à escala de Planck. No entanto, branas de dimensões superiores podem, em princípio, ser muito maiores, podendo atingir escalas cosmológicas ou até mesmo possuir extensão infinita.
Em seu livro O Universo numa Casca de Noz, Stephen Hawking recorre a uma analogia intuitiva para ilustrar esse conceito, comparando o surgimento de uma brana à formação de bolhas em água fervente. Cada bolha é tridimensional, mas sua superfície é bidimensional - e é essa superfície que representa a brana no exemplo.
De forma análoga, nosso universo pode ser descrito como um espaço tridimensional que, na verdade, corresponde a uma 3-brana imersa em um espaço de dimensionalidade superior. Nesse contexto, nosso cosmos não seria único, mas apenas um entre muitos universos-brana coexistindo em um multiverso das branas.
É naturalmente difícil visualizar ou representar um cosmos multidimensional, dado que nossa experiência direta está limitada a três dimensões espaciais. A figura abaixo ilustra, de maneira puramente metafórica, um conjunto de 2-branas próximas entre si:

Cabe ressaltar que as branas podem assumir orientações variadas no espaço multidimensional, e que branas de diferentes dimensionalidades podem coexistir nesse mesmo "hiperespaço".
Em muitos modelos, assume-se que esses universos-brana são inacessíveis uns aos outros no que diz respeito às interações conhecidas. Contudo, não se pode descartar a possibilidade de que a gravidade, diferentemente das demais forças fundamentais, possa se propagar pelas dimensões extras, exercendo alguma influência entre branas próximas.
Nesse cenário, os universos-brana não seriam estáticos: eles poderiam se mover no espaço multidimensional e, eventualmente, colidir. Essa hipótese conduz a modelos de multiverso cíclico, nos quais colisões entre branas dariam origem a enormes liberações de energia - eventos que, do ponto de vista de cada universo individual, poderiam ser interpretados como Big Bangs. Assim, o cosmos seria descrito como um sistema dinâmico, em contínua transformação e renovação.
★ Edição: Mauro Mauler - Publicado originalmente em 17/10/2023 - última revisão e atualização: 15/02/2026.
★ Referências:
- GREENE, Brian. A realidade oculta: universos paralelos e as leis profundas do Cosmo. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- HAWKING, Stephen. O Universo numa casca de noz. 1.ed. São Paulo: Editora Mandarim, 2001.
- HAWKING, Stephen W.; HERTOG, T. A Smooth Exit from Eternal Inflation?, v3. arXiv, 24/07/2017 (revisão 20/04/2018).
- LINDE, Andrei. The self-reproducing inflationary universe. Scientific American, [s.l.], v. 271, n. 5, p. 48-55, nov. 1994.
- TEGMARCH, Max. Parallel Universes, v1. arXiv, 07/02/2003.
- VILENKIN, Alexander. Many Worlds in One: The Search for Other Universes. New York: Hill and Wang, 2006.
- WITTEN, Edward. String Theory Dynamics In Various Dimensions, v2. arXiv, 20/03/1995 (revisão 24/03/1995).



